
Chema Madoz, Sol Cerillas, 1997
É bom falar dos amigos. Adoro falar deles. E mais importante, é bom sentir que os amigos falam de nós e que adoram falar connosco. Por outro lado, é um tema difícil, espantosamente difícil. Aliás, como tudo aquilo que nos é próximo ou que faz parte de nós.
Aqui estou a falar deles. Começo por lhes elogiar os gostos de culinária. Adoro almoçar no meio de pessoas tão diferentes, almas que preferem por um lado pratos vegetarianos e no outro extremo da mesa se preparam para uma picanha, regada com um alentejano à maneira. Curiosamente, costumo ficar no meio dos amigos de gostos diferentes, como um Cristo da Última Ceia, negociando com o cardápio um menu de compromisso, satisfeitíssimo por escutar tantas vozes dissonantes e ruidosas em derredor.
Depois, os amigos são os que nos arrastam para o prazer de vícios que não temos e que depois deles deixam de o ser, um charuto e um digestivo condizentes com a cor dessa quinta ou sexta-feira, entre palmadas nas costas e sarcasmos futebolísticos, etc, etc… Gosto de me viciar nos gostos dos amigos, seja por um par de horas ou por dias inteiros, enquanto a saudade deles me faz escrever coisas que nunca chegam ao fim.
Ouvi-los é excelente. Há colóquios que ficam durante os infinitos anos que são precisos para deixarmos de os lembrar. O fulano que fugia de um polícia que afinal era um tipo fardado dos correios. Aquele que entrou em casa pela janela e descobriu não a mulher com outro, mas a mulher com outra. O que anda a tirar a carta de condução há anos e já experimentou em desespero de causa todos os métodos alternativos, desde o suborno até a corrupção. E a coisa vai de assunto em assunto, como se um tipo atravessasse um regato saltitando entre pedrinhas, feliz de saber e não saber o que é amizade.
Uma das melhores características dos amigos é a tendência para os assuntos sérios nos parques de estacionamento. Aqui, a regra aplica-se como uma luva quando o álcool cumpriu o seu dever e à superfície traz, pela força das angústias dominadas, verdades escusas e obscuras. Eles perguntam-nos o que pensamos. E nós dizemos sempre o que pensamos, embora nunca saibamos o que dizer. Eles querem o nosso apoio. E nós apoiamo-los, apesar de não termos a certeza do que é bom para eles. Eles abraçam-nos com força, esmagando-nos as omoplatas. E nós abandonamo-nos ao ímpeto da efusão, aceitando o castigo, expiando a culpa de não sermos os amigos fiéis e sinceros que as circunstâncias exigem. E isso é o que todos os bons amigos fazem.
De quando em quando, há aqueles que nos convocam para uma enrascada qualquer. Eles estão lá, imbecilmente atolados, e pedem que nos associemos a eles, como se tivéssemos de jantar com o seu tumulto ou então tivéssemos de os retirar do fosso, enérgicos e maternais como a mãe que dá um banho ao filho traquinas e depois lhe põe as orelhas a arder. Para esse fim, não me convenço do contrário, nos chamam eles. É só de quando em vez, muito perdidos de cerveja e de pilhérias, o razoado atropelando a razão e por aí fora. Ficamos com eles, cismando na puta da vida, ele já a ressonar, a casa num fanico, o sermão a ficar para amanhã quem sabe, atenuado de factos, de coisas, de motivos, de linhas breves da mulher que o deixou, ou do patrão que o despediu. É duro, pá!
Os amigos. São, sem dúvida, um tema fabuloso. Todos sabem do que falo. Nós descrevemo-los, como eles nos descrevem a nós. E há uma vaidade nisto tudo, um gosto especial de pertencer-lhes, de lhes prestarmos contas, de lhes narrarmos as bizarrias interiores, de lhes darmos a matéria com que hão-de compor as anedotas da praxe, e isto às quintas e sexta, num círculo de ruído e dissonância, ao mesmo tempo portentoso e delicado. Gosto de falar deles, palavra que gosto, gosto de esquecer estes pequenos vícios que não são vícios, este charuto e o digestivo, enquanto a caneta rola e a armadura das saudades também.
É bom falar deles. Adoro falar deles. E, muito importante, é bom sentir que os amigos falam de nós, que adoram falar connosco. Amanhã, perdidos de bêbados, quem sabe, podemos ligar-lhes. E eles virão. Levar-nos-ão com esforço até à cama, sem um esgar de culpa, sem um olhar reprovador. Eles compreenderão. Eles terão lido as linhas poucas. Terão lido tudo.
Aqui estou a falar deles. Começo por lhes elogiar os gostos de culinária. Adoro almoçar no meio de pessoas tão diferentes, almas que preferem por um lado pratos vegetarianos e no outro extremo da mesa se preparam para uma picanha, regada com um alentejano à maneira. Curiosamente, costumo ficar no meio dos amigos de gostos diferentes, como um Cristo da Última Ceia, negociando com o cardápio um menu de compromisso, satisfeitíssimo por escutar tantas vozes dissonantes e ruidosas em derredor.
Depois, os amigos são os que nos arrastam para o prazer de vícios que não temos e que depois deles deixam de o ser, um charuto e um digestivo condizentes com a cor dessa quinta ou sexta-feira, entre palmadas nas costas e sarcasmos futebolísticos, etc, etc… Gosto de me viciar nos gostos dos amigos, seja por um par de horas ou por dias inteiros, enquanto a saudade deles me faz escrever coisas que nunca chegam ao fim.
Ouvi-los é excelente. Há colóquios que ficam durante os infinitos anos que são precisos para deixarmos de os lembrar. O fulano que fugia de um polícia que afinal era um tipo fardado dos correios. Aquele que entrou em casa pela janela e descobriu não a mulher com outro, mas a mulher com outra. O que anda a tirar a carta de condução há anos e já experimentou em desespero de causa todos os métodos alternativos, desde o suborno até a corrupção. E a coisa vai de assunto em assunto, como se um tipo atravessasse um regato saltitando entre pedrinhas, feliz de saber e não saber o que é amizade.
Uma das melhores características dos amigos é a tendência para os assuntos sérios nos parques de estacionamento. Aqui, a regra aplica-se como uma luva quando o álcool cumpriu o seu dever e à superfície traz, pela força das angústias dominadas, verdades escusas e obscuras. Eles perguntam-nos o que pensamos. E nós dizemos sempre o que pensamos, embora nunca saibamos o que dizer. Eles querem o nosso apoio. E nós apoiamo-los, apesar de não termos a certeza do que é bom para eles. Eles abraçam-nos com força, esmagando-nos as omoplatas. E nós abandonamo-nos ao ímpeto da efusão, aceitando o castigo, expiando a culpa de não sermos os amigos fiéis e sinceros que as circunstâncias exigem. E isso é o que todos os bons amigos fazem.
De quando em quando, há aqueles que nos convocam para uma enrascada qualquer. Eles estão lá, imbecilmente atolados, e pedem que nos associemos a eles, como se tivéssemos de jantar com o seu tumulto ou então tivéssemos de os retirar do fosso, enérgicos e maternais como a mãe que dá um banho ao filho traquinas e depois lhe põe as orelhas a arder. Para esse fim, não me convenço do contrário, nos chamam eles. É só de quando em vez, muito perdidos de cerveja e de pilhérias, o razoado atropelando a razão e por aí fora. Ficamos com eles, cismando na puta da vida, ele já a ressonar, a casa num fanico, o sermão a ficar para amanhã quem sabe, atenuado de factos, de coisas, de motivos, de linhas breves da mulher que o deixou, ou do patrão que o despediu. É duro, pá!
Os amigos. São, sem dúvida, um tema fabuloso. Todos sabem do que falo. Nós descrevemo-los, como eles nos descrevem a nós. E há uma vaidade nisto tudo, um gosto especial de pertencer-lhes, de lhes prestarmos contas, de lhes narrarmos as bizarrias interiores, de lhes darmos a matéria com que hão-de compor as anedotas da praxe, e isto às quintas e sexta, num círculo de ruído e dissonância, ao mesmo tempo portentoso e delicado. Gosto de falar deles, palavra que gosto, gosto de esquecer estes pequenos vícios que não são vícios, este charuto e o digestivo, enquanto a caneta rola e a armadura das saudades também.
É bom falar deles. Adoro falar deles. E, muito importante, é bom sentir que os amigos falam de nós, que adoram falar connosco. Amanhã, perdidos de bêbados, quem sabe, podemos ligar-lhes. E eles virão. Levar-nos-ão com esforço até à cama, sem um esgar de culpa, sem um olhar reprovador. Eles compreenderão. Eles terão lido as linhas poucas. Terão lido tudo.





