Sábado, 19 de Julho de 2008

A propósito do círculo


Chema Madoz, Sol Cerillas, 1997


É bom falar dos amigos. Adoro falar deles. E mais importante, é bom sentir que os amigos falam de nós e que adoram falar connosco. Por outro lado, é um tema difícil, espantosamente difícil. Aliás, como tudo aquilo que nos é próximo ou que faz parte de nós.

Aqui estou a falar deles. Começo por lhes elogiar os gostos de culinária. Adoro almoçar no meio de pessoas tão diferentes, almas que preferem por um lado pratos vegetarianos e no outro extremo da mesa se preparam para uma picanha, regada com um alentejano à maneira. Curiosamente, costumo ficar no meio dos amigos de gostos diferentes, como um Cristo da Última Ceia, negociando com o cardápio um menu de compromisso, satisfeitíssimo por escutar tantas vozes dissonantes e ruidosas em derredor.

Depois, os amigos são os que nos arrastam para o prazer de vícios que não temos e que depois deles deixam de o ser, um charuto e um digestivo condizentes com a cor dessa quinta ou sexta-feira, entre palmadas nas costas e sarcasmos futebolísticos, etc, etc… Gosto de me viciar nos gostos dos amigos, seja por um par de horas ou por dias inteiros, enquanto a saudade deles me faz escrever coisas que nunca chegam ao fim.

Ouvi-los é excelente. Há colóquios que ficam durante os infinitos anos que são precisos para deixarmos de os lembrar. O fulano que fugia de um polícia que afinal era um tipo fardado dos correios. Aquele que entrou em casa pela janela e descobriu não a mulher com outro, mas a mulher com outra. O que anda a tirar a carta de condução há anos e já experimentou em desespero de causa todos os métodos alternativos, desde o suborno até a corrupção. E a coisa vai de assunto em assunto, como se um tipo atravessasse um regato saltitando entre pedrinhas, feliz de saber e não saber o que é amizade.

Uma das melhores características dos amigos é a tendência para os assuntos sérios nos parques de estacionamento. Aqui, a regra aplica-se como uma luva quando o álcool cumpriu o seu dever e à superfície traz, pela força das angústias dominadas, verdades escusas e obscuras. Eles perguntam-nos o que pensamos. E nós dizemos sempre o que pensamos, embora nunca saibamos o que dizer. Eles querem o nosso apoio. E nós apoiamo-los, apesar de não termos a certeza do que é bom para eles. Eles abraçam-nos com força, esmagando-nos as omoplatas. E nós abandonamo-nos ao ímpeto da efusão, aceitando o castigo, expiando a culpa de não sermos os amigos fiéis e sinceros que as circunstâncias exigem. E isso é o que todos os bons amigos fazem.

De quando em quando, há aqueles que nos convocam para uma enrascada qualquer. Eles estão lá, imbecilmente atolados, e pedem que nos associemos a eles, como se tivéssemos de jantar com o seu tumulto ou então tivéssemos de os retirar do fosso, enérgicos e maternais como a mãe que dá um banho ao filho traquinas e depois lhe põe as orelhas a arder. Para esse fim, não me convenço do contrário, nos chamam eles. É só de quando em vez, muito perdidos de cerveja e de pilhérias, o razoado atropelando a razão e por aí fora. Ficamos com eles, cismando na puta da vida, ele já a ressonar, a casa num fanico, o sermão a ficar para amanhã quem sabe, atenuado de factos, de coisas, de motivos, de linhas breves da mulher que o deixou, ou do patrão que o despediu. É duro, pá!

Os amigos. São, sem dúvida, um tema fabuloso. Todos sabem do que falo. Nós descrevemo-los, como eles nos descrevem a nós. E há uma vaidade nisto tudo, um gosto especial de pertencer-lhes, de lhes prestarmos contas, de lhes narrarmos as bizarrias interiores, de lhes darmos a matéria com que hão-de compor as anedotas da praxe, e isto às quintas e sexta, num círculo de ruído e dissonância, ao mesmo tempo portentoso e delicado. Gosto de falar deles, palavra que gosto, gosto de esquecer estes pequenos vícios que não são vícios, este charuto e o digestivo, enquanto a caneta rola e a armadura das saudades também.

É bom falar deles. Adoro falar deles. E, muito importante, é bom sentir que os amigos falam de nós, que adoram falar connosco. Amanhã, perdidos de bêbados, quem sabe, podemos ligar-lhes. E eles virão. Levar-nos-ão com esforço até à cama, sem um esgar de culpa, sem um olhar reprovador. Eles compreenderão. Eles terão lido as linhas poucas. Terão lido tudo.

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

A outra face da fotografia


André Kertész, Homing Ship, 1944

O homem debruça-se e faz disparar a máquina. É um instante, um segundo. Na chapa fica gravada o rosto de tudo o que é tudo. A face a partir das águas. Um corredor de imagens por onde resvalamos o olhar e às vezes por muito tempo.

Porém há a outra face. O homem que compôs os elementos. Que os juntou. Também ele é um corredor por onde deveríamos avançar. Também ele uma tarde com ruas encharcadas e talvez um fio de esperança, por onde se agita a mesma criança que nós deixamos de compreender.

É essa a face que me deslumbra agora. A que me prende as poucas palavras possíveis. Gostava de falar dela, dos seus bancos solitários, da sua fuga apressada, do seu eco de passos. O homem recolhe tudo e parte. É dele que me ocupo.

Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

A beleza


Albert Renger-Patzsch, Euphorbia Grandicornis, 1922

Alguém escreveu algures uma vez que a beleza existe para fazer sofrer. Concordo.

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Os Arcos do Ventura


jrl (2008)

Que isto é terra lendária, de cavaleiros portugueses a dar uma tareia aos de Leão, é coisa que o Ventura não se cansa de repetir. Foi o cicerone apropriado, intercalando as belezas de Valdevez com as façanhas de Afonso Henriques. E não é caso para menos, pois sabe bem lembrar os tempos em que as vitórias eram nossas por direito, sem erros de arbitragem ou fífias da defesa.

Hoje ergue-se por cá um monumento evocativo e uma paisagem de fazer inveja a muita vila e cidade do País! Boas gentes as de Valdevez, sem papas na língua e muita confiança no lugar que ocupam. Onde mais podiam os pares do nosso primeiro rei encontrar a inspiração? Mais que não fosse pelo cenário idílico, comum a terras do Minho como Ponte de Lima, Ponte da Barca, Monção ou Melgaço.

Prometi ao Ventura fazer-lhe a justiça de reconhecer a beleza dos lugares visitados, até o do relógio de água que, diz ele, não tem igual no mundo, excepto um na Suíça. E eu acredito, claro, porque os Arcos de Valdevez têm excentricidades destas: têm um relógio de água com um igual só na Suíça, têm uma Dona Maria deliciosamente amiga do calão, em cuja tasca (Tasca do Delfim) vi concertinas, alfaias agrícolas e notas antigas penduradas, têm uma ponte e um rio que são um postal sem tirar nem pôr, têm um professor Ventura de TIC e um Torneio Medieval de boa memória, onde os portugueses mostraram o que valem, pá. Que coça aos espanhóis!

Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Ainda a propósito de coisas boas


jrl (2008)

Amo este silêncio que há nas fotografias e nos recorda a urgência dos lugares. Não sei se a palavra é silêncio. Talvez seja outra. É uma vaga impressão de melancolia. E às vezes faz bem, faz falta. Por isso, gosto de olhá-las demoradamente e rodeá-las de uma história. E com elas me fico.

Domingo, 13 de Julho de 2008

Postal com muito de fora e de dentro


jrl (2008)

Ontem andei por terras do Alto Minho, numa visita de estudo, com formandos do curso EFA, à Barragem do Lindoso.

A passagem pela Hidroeléctrica, confesso, não me entusiasmou por aí além, apesar da imponência do betão e das suas máquinas em tamanho de colosso. Porém, as paisagens encontradas na vila de Arcos de Valdevez e no Soajo, na encosta da Peneda-Gerês, proporcionaram-me o prazer muito particular da fotografia e os minutos de contemplação que depois, sabe-se lá quando, sabe-se lá como, servem de tecido às palavras, às que muita vez nascem como as montanhas, longe, e sempre chegam perto. E fundo também.

Não foram, ainda assim, unicamente os cenários o que me ficou desta visita. Como sempre acontece, no final dos anos lectivos, um misto de satisfação e nostalgia força um nó górdio, que é de saudade sobretudo. Nas viagens conversa-se, escuta-se, compreende-se melhor certas pessoas que nos entraram pela alma dentro e nela moram já. Um pouco assim como estas fotos que, ao mesmo tempo têm algo de magnífico e singelo.

As fotos ficam. Ficam muito tempo. Às vezes mais do que as pessoas que nelas nos sorriem e abraçam. Quando à tarde passeava por entre os espigueiros e me vinha à cabeça a sua exasperante solidão, oferecidos que estão às tempestades como altares vazios, foram as pessoas o que me doeu mesmo antes de doer. Que elas, estas, permaneçam! Longe e perto. E fundo também.

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Crónica de uma manhã de nevoeiro


Foto

Há dias em que se acorda e se tem pensamentos destes. Nós e as outras pessoas, especialmente se houver nevoeiro a entrar-nos pela janela do quarto, nós e as outras pessoas, cansados de nos aturarmos, atados num mesmo nó com e levados dentro de uma cesta de palha como alho francês, nós e as outras pessoas hirtos e incomunicáveis como um molho de alho francês na abada de uma dona de casa.

Estou num dias desses. Acordei com nevoeiro a entrar-me pela janela do quarto e o frio a deixar-me mal disposto, estranhando a manhã de verão que assim nos apareceu, recuperando as imagens do dia anterior, as pessoas que afinal não são quem pensava (aqui e ali, alguém me há-de chamar crente ou crédulo), preparando-me para um café bem forte na cozinha, exercitando os músculos da consciência como se estivesse a fazer alongamentos com as pernas e braços, o café a arrefecer, o corpo caído, as imagens das pessoas e de mim a misturarem-se numa cena de feira, muito juntos e aborrecidos, levados debaixo do braço pela Dona Filomena, a senhora do destino.

A coisa melhor que tenho para dias destes é tomar café e ouvir música. Meter um cd de Vicente Amigo no leitor (muito melhor do que o Prosac) e depressa estar noutra parte do tempo e do mundo, não obstante o caderno continuar com coisas inacabadas, embora a bicicleta esteja ainda à espera de que me ponha em cima dela e vá escorraçar o nevoeiro, apesar deste jeito teimoso de não sair do labirinto, como se me apetecesse dar cabo dele e não apenas sair mais uma vez dos seus corredores armadilhados.

Há dias assim, já mo tinham dito, oh, quando chegares aos trinta tu vais ver, dias que são o exercício de esforço para não deixarmos que nos salte o fio do palavrão, quando a água não está suficientemente quente no duche, quando a t-shirt tem uma nódoa inesperada, quando damos conta de que a esta hora devíamos estar obrigatoriamente no notário, quando o problema das velas do carro deu para complicar.

E tudo isto para chegar ao ponto sensível: estou decepcionado contigo. Sinto, afinal de contas, que não compreendeste o que te vinha dizendo e que uma espécie de falta de sexto sentido te guiou para o naufrágio. Não sei porque me não ouviste. As coisas rolam, rolarão, é inevitável, e tu continuarás a ser tu, tenho a certeza, e entre nós haverá esta aparição de nevoeiro assaltando o parapeito e aturdindo os ossos, haverá manhãs que são as paredes internas do labirinto, do estúpido labirinto de andarmos a par e nunca sabermos quem somos.

Tenho um poema por acabar, uma bicicleta pronta a levar-me contra este muro de mau humor, tenho Vicente Amigo aquecendo a casa como uma lareira, tenho o café arrefecido nas mãos, tenho o corpo mole e ao mesmo tempo duro como pedra, demora, as coisas passam na cabeça como nebulosas mexendo sem pressa, demora massajar a cabeça, a ideia segrega-se a si mesma, a conta-gotas, sei que estou perto dela, e depois dela tudo será diferente. Tudo.

Acredita minha cara, minha cara-metade, há dias assim. Mal despontaram, já sabemos como hão-de terminar. Apetece-me dizer-te que não gosto de nevoeiro. Não hoje, não nestes dias. A ideia virá, virá o sol. E tudo terá sido uma vaga impressão de má disposição. Entende-me!

Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Sr. Matias


jrl (2008)


O Sr. Matias saiu à rua e fez tudo como das outras vezes. Nem se esqueceu de levar o meio pão para o cachorro abandonado debaixo do Coreto. Vestia um dos seus fatos iguais, razão por que ninguém pareceu reparar nele. O homem do quiosque entregou-lhe o jornal e estava tão acostumado a fazê-lo, ou tão mal de memória, que não saberia, se lhe perguntassem daí a pouco, dizer se vira ou não o Sr. Matias nessa mesma manhã.

Depois de oferecer o meio pão ao cachorro e de ir buscar o diário ao quiosque, o homem encaminhava-se para um banco de madeira onde ficava de pernas cruzadas a lê-lo. Depois tinha de as descruzar, por causa do formigueiro, punha-as um bocado estendidas e voltava a cruzá-las, invertendo porém a ordem do enlace. Entretanto, como seria de esperar, dava sacudidelas ao jornal e de vez em quando passava de uma para a seguinte.

As pessoas mais chegadas ao Sr. Matias eram uma costureira, que vivia no andar de baixo, e um polícia e respectiva família, por cima do seu apartamento. Estes estavam normalmente a trabalhar quando ele descia à rua. Não puderam reparar, portanto, que nesse dia o vizinho levava peúgas diferentes. Aliás, não poderiam, mesmo que com ele se atravessassem nas escadas (o prédio não tinha elevador), pois para tanto era preciso que as calças estivessem arregaçadas, o que nunca sucedia com as do Sr. Matias. Podia acontecer uma excepção, por exemplo, que por lapso o homem as levasse um tanto acima da medida, em virtude de algum raro, mas possível, efeito elástico. E aí diriam:

— Ó vizinho, desculpe, o senhor leva peúgas diferentes nos pés!…

Não, a frase é de todo improvável. Exigiria além do mais algum atrevimento e cumplicidade. E a verdade é que a costureira e o polícia e respectiva família falavam pouco com o Sr. Matias. Depois, como as peúgas costumam servir para os pés, também é pouco de crer que alguma daquelas pessoas não pensasse realmente no redundante que há em se dizer peúgas diferentes nos pés! Enfim, ali está ele, vemo-lo de olhos fechados, a ler o jornal, pernas cruzadas e calças ligeiramente subidas, mostrando-se, caso se preste atenção, uma peúga azul, lisa, sem feitios ou padrões num dos sapatos, e uma peúga com uma risca branca, a circundar-lhe a parte acima do tornozelo e imediatamente abaixo da bainha. A cor também não é exactamente a mesma. O azul de uma é marinho, o de outra é cobalto.

A primeira pessoa a reparar nesta dissonância foi uma senhora da Companhia dos Telefones, que por mero acaso focou os sapatos do Sr. Matias, visto andar com ideias de oferecer uns ao marido e ir aproveitando todos os sapatos de homem que lhe apareciam à frente para estabelecer um juízo. Saltou-lhe à vista a desafinação, porém seguiu caminho sem dizer nada, como é natural, achando aquilo uma distracção comum, que podia até ser embaraçosa se a pessoa dela se desse conta.

A segunda e terceira pessoas a notar o pormenor foram uma cabeleireira e o marido, este sem culpa, dado que foi a mulher quem lhe puxou pelo braço para dizer:

— Olha para aquele homem! Tem os pés calçados com peúgas diferentes!

O marido, amuado com qualquer coisa em particular, ou com a vida em geral, não prestou grande atenção ao caso e resmungou:

— Que importância tem isso?

Manhã fora, algumas pessoas mais observaram a falha do Sr. Matias. A Vila é pequena, novidades, também não as há muitas. Assim, aconteceu alguém ter visto e contado e houve quem passasse de propósito junto do banco de madeira só para confirmar o facto e poder rir-se um bocado, à socapa.

Claro que aquilo acabava-se logo, se o Sr. Matias tivesse reparado. Ou se alguém lhe tivesse feito uma observação, a dar conta do lapso. Ou até mesmo se o ele não estivesse tão concentrada nas coisas que vinham escritas nas folhas do matutino. Nestes casos, já se teria levantado e ido embora. Mas como era um leitor de fundo, dos bons, a coisa continuou.

Queira acrescentar-se isto: o cachorro gostava muito dele, tal como o homem gostava muito do cachorro. De algum modo, é intrigante que tanto afecto não o tenha levado a adoptar o animal. Ter um cão dentro de casa não era, contudo, coisa muito simples, tratando-se a sua casa de um apartamento, mais ainda com uma costureira por baixo e um polícia por cima. O bicho haveria de ladrar e o agente da autoridade teria de o chamar à colação e provavelmente ameaçá-lo e tudo. Tudo isso era muito avesso ao temperamento do Sr. Matias. De modo que o seu afecto pelo cachorro passava por lhe levar uma ração diária de pão (era uma carcaça das grandes, mas em metade), e às vezes um pouco de carne e sobras de jantar, se as tivesse. Fosse por piedade, fosse por imitação da constância do vizinho, outras pessoas passaram a contribuir com a sua dose diária de solidariedade e o canino, diga-se, não passava fome.

Mas de todos preferia-o a ele, o velho Matias da Tipografia. Vinha no seu encalço desde o Coreto até ao banco da leitura do jornal. E ali se deitava, com o focinho no chão, provavelmente a dormitar e a sonhar com uma cadela, com ossos entremeados de carne ou apenas com um dono que lhe fizesse cócegas na barriga. Por ser bondoso, pacato e discreto, esse amigo de duas patas (e, nesse dia, de peúgas diferentes) era a sua melhor companhia.
Na Vila há um marchante muito brincalhão, chamado Casimiro. As pessoas gostam de ir ao seu talho pedir uma combinada dose de carne e ouvir uma anedota:

— Ó Casimiro, queria um quilo de vitela do acém e meia dúzia de linguiças!

E o marchante lá lhes corta a carne pelo interior avermelhado da posta da vitela, enquanto desfia a peripécia:
— Ai, Santa! Quem me dera a mim estar de perna cruzada, a dar lição de moda! Que rica vida!…

E deu uma gargalhada cheia de açúcar, não tanto por maldade, antes por malícia, que coisas não totalmente coincidentes. Como as pessoas não percebiam, eles explicava e elas iam de mansinho confirmar, vendo o homem além do mais acompanhado por um cachorro, tanto de pêlo como de mimos, muito pelintra. A cena inspirava. E o Casimiro do Talho depressa teve a ajuda do Carteiro, um farsola, e da especialista em assuntos de mofa, a Fernanda Peixeira.

Quando às onze menos dez, o Sr. Matias se levantou, espreguiçou e encaminhou para casa, depois de afagar o bicho e dele se despedir (o cachorro não o seguia, pois aprendera que era aquela a sua casa), já uma espécie de ditado ou slogan despontava no Centro, sabe Deus com que possibilidades de expandir-se: Se não sabes em que te peúgas enfias, lê o jornal como o Matias!

As pessoas gostam destas coisas. Sobretudo se o episódio puder ser acrescentado e melhorado de detalhes: aquilo era um homem tonto que todos os dias trocava as peúgas e às vezes os sapatos; um pobre diacho sem ter onde cair morto, que tem um cão sarnento e pede esmola junto do Coreto; um velho cheio de massa, que vive pobremente por ser ganancioso; um daltónico e atrasado mental!…

O Sr. Matias é que não podia saber, sequer imaginar, estas coisas. Vivia só e dava-se pouco. Tinha a sua pensão de reforma e, porque trabalhara num jornal, recebia todas as manhãs um exemplar que a empresa lhe enviava de borla, visto ele gostar ainda de se inteirar do mundo e do País e de ter um pé para sair à rua e outro para estar com o seu amigo do Coreto. Vivia remediado, sem aflições e sem excessos. Era apenas um homem bom. E rodeado de pessoas. Como todos nós.

Domingo, 6 de Julho de 2008

A natureza do amor




Olhando-a de barco, depressa compreendemos como a cidade é uma espiral de origens, camadas que se foram acrescentando conforme o sol que outrora a iluminou. Agora mesmo, um incêndio de perfumes abrasa o coração dos visitantes. Pelas narinas entra-nos um cordão de essências, especiarias e fragrâncias indecifradas, âmbares e resinas ardendo nas balaustradas, mas igualmente o eco dos desertos, igualmente a vaga presença dos mares e povos do norte que por aqui transitam e se misturam.

As paredes guardam o filme de aparições misteriosas, lendas, encontros interditos, ódios vingados, amores que se furtaram ao silêncio do sono, olhos fundos como a terra. Tudo reside aqui, tudo aqui nesta cidade charneira.

Depois de um sem número de voos pelo mundo, escorraçado das praias do sul de França, aqui aportei. Atraiu-me de início o adobe a flamejar entre o esguio das torres e das mulheres contrastando com as malhas azuis do mar. Fiquei, observando o florir das madrugadas, febril como todos os homens novos ainda, disposto a esquecer a lonjura das recordações anteriores e depurar a existência em algo inteiramente novo. Nada mais propício a um homem da escrita do que a fortuna de uma terra pacífica e feliz.

Quando buscava o mapa mental da cidade, numa das suas praças, descobri Nahid, a mais bela mulher que viram os meus olhos. Dediquei-lhe um poema e outros, depois saudações fugazes de rua, depois palavras. Ao cabo de alguns meses, sou este que cedeu ao encantamento pela mulher inteligente e terna que ela, mulher ocidental, cujo salário como administrativa numa empresa turística espanhola em Nador fez emancipar e adquirir um cariz distinto em relação às mulheres de Marrocos.

Gostaria de poder cortejá-la e tê-la como esposa. Mas o pai, Abed, professor numa Madrasa, insiste em demonstrar a natureza ténue destas fantasias. Não entregará a filha a um kaffir, ser de vento, impuro, infiel. Imagino quantas vezes, nas suas orações, prostrando o velho tronco para o mihrab, terá pedido ao Divino que entregue a bela e fulgurante Nahid a um dos legítimos do Profeta e não a um maldito estrangeiro, como eu.

Eu! Como me sinto tão centrado em mim por estes dias. Nas minhas crónicas para o La Presse Internationale, sempre preferi esconder este eu inócuo perante a grandeza das civilizações. Aqui, desenhando rotas para turistas, descrevendo para milhões o modo de vida de nómadas e gentes antigas, indecidido entre o azul do Mediterrâneo e esta pequena vida de coisas peneiradas pelo sol, de casas sobrepondo-se num apaziguar de olhos, de toldos listados de bazares, de minarete e às vezes de silêncio (de profundo silêncio, como se dentro dele pairasse), penso em como é irónico pensar também em mim. E tudo porque ela existe, Nahid. Cada dia que passa, entre deslocações rápidas aos países vizinhos, dou-me conta de como não saberei partir sem ela, nem permanecer sem o seu amor.

Quando estamos sós e nos toca uma espécie de brusquidão de pássaros, quando o feitiço do mar nos parece querer emendar os destinos, digo-lhe como seríamos felizes longe, como gostaria que partisse comigo, como preferia que escrevêssemos com pena de fogo outra página onde a mesquinhez dos homens não pudesse apagar-nos o coração. Mas Nahid ama os seus. Abed. Ama os sítios onde, como âncoras ferozes, a vida se lhe fez prender e para lá dos quais nada parece existir.

Uma vez, no regresso de Moulay-Idriss, a cidade santa, negou que nada importe mais ao seu povo do que saber da alegria de Deus. Narrou histórias antigas da família, a de uma bisavó que fugiu com um marinheiro grego, a de uma tia-avó que partiu com um soldado francês. E vi como me olhou com esses olhos que me desossam de tão fundos de fé.

Mas nada é fácil nesta terra onde as eras e as mentalidades se sobrepõem devagar. Steven, o fotógrafo, explica-me como pensam as gentes de cá. Conta-me como se desprezam as mulheres que abandonam as suas famílias e se furtam à xaria. Conta-me como é prenhe de semelhantes infortúnios a história da cidade, amores enormes e amores esquecidos. Tão diferente de tudo o que conhecemos na Europa.

— Lucas, não há leis boas e leis más. Há só leis. Aqui as pessoas pensam que têm de se prender a uma terra, como as árvores. Para eles a lei é boa. Os homens é que não…

— Mas, Steven, algum dia, nalgum ponto do mundo, é preciso mostrar como as leis nos não obedecem…

— Talvez! Mas obedecem a Allah. E crêem que Ele sabe o melhor para si, por isso Lhe obedecem! Costumam até contar uma história…

E contou a história de um sicómoro que um dia se deu conta de que onde quer que estivesse uma sombra o perseguia. Fugiu-lhe o mais que pôde, trepando montanhas, atravessando rios, descendo vales. Em nenhum lugar pôde descansar, pois sempre a sombra o alcançava. Decidiu, exausto, fixar-se nesse mesmo lugar, que era só um deserto. Compadecido, O Todo-Poderoso fê-lo rodear-se de outras árvores e de animais e de água abundante. Porque Deus pode tudo e sabe tudo, até o que é melhor para nós. Assim nasceu um oásis.

— Mas é esse mesmo Deus que mantém duro o coração dos homens, por exemplo o de Abed!

— Não, Lucas! Essa é negra face dos homens que se apropriaram da verdade de Deus. Abed não pode entender, como Nahid não pode fugir ao seu destino, como tu partirás sem ela, amigo!

Quando anoitece e um leve tom rosado se estende de lés a lés no firmamento, quando um sopro fresco de águas vem até ao meu quarto, noto como também eu estou exausto de caminhar e como me assolam as primícias de uma grande tempestade. O passado persegue-me como a sombra perseguia o sicómoro. Mas ficar é algo que me transcende. É a terrível escolha de me prender definitivamente.

Hoje, ao regressar ao hotel, tomei a decisão, com as últimas palavras de Abed baloiçando na nuca:

— Se amas Nahid, deves aceitar o seu mundo. Deverás tornar-te um de nós, hanif, filho do Islão!…

A cidade é belíssima a esta hora. Ao contemplá-la uma última vez, angustia com a certeza de que, apesar das raízes esgarçadas da caminhada vã pelo mundo, não sou o sicómoro que há-de semear-se voluntariamente aqui para esse Deus misericordioso. Ah, bela Nahid, se tivesses querido…

A grande tempestade vem chegando. É talvez esta a natureza, isto que nos empesta a alma para sempre. Como eu, hás-de compreendê-lo, Nahid. É próprio de cada homem e de cada mulher escolher o seu destino. Amanhã, Steven e eu embarcaremos em Rabat. E talvez nunca mais ame tanto outra pessoa. E talvez seja essa a maior bênção. Deus permita…

Sábado, 5 de Julho de 2008

Sem Título (XXXIV)


jrl (2008)

Hoje apetece-me andar. Pelo meio de árvores. Pelo meio das palavras. Pelo meio de pensamentos. Pelos meio dos amigos. Pelo meio de coisas que são a curvatura luminosa ladeando-nos o olhar. Pelo meio do coração.

Tenho saudades de quando havia horas para estarmos todos juntos e brincarmos. Tenho saudades dos dias em que os dias não se contavam, dos dias em que as aventuras eram mais importantes do que decifrar o amor ou a falta dele, do que o dinheiro ou a ausência dele, do que a vida ou a morte.

Hoje apetece-me brindar às maravilhas que nos passaram pelo alma, brindar aos versos escritos e esquecidos, brindar ao sorriso e ao abraço, à mão dada, ao verbo dar e ao verbo agradecer, ao punhado de sol entre as manhãs escuras, às cartas perfumadas e aos subtis todos que não entendi e agora me ardam em desespero.

Tenho saudades. Tantas. E por isso estou bem, feliz, firme. Saudades dos amigos. Saudade de quando havia uma hora para estarmos todos juntos. E brincarmos.