segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

natureza das coisas


Foto: Paulo Nozolino

nenhum animal por perto
nenhum que ultrapasse em grandeza
o silvo das estrelas bailando em
oposta direcção ao teu corpo.
a nossa conversa lembra como por vezes
é bom sentir a terra debaixo dos pés
como é melhor renunciarmos ao voo
e à desmesura dos sonhos.
batemos por fim a porta do carro.
a casa, felizmente, cheira a casa

regressamos de tão longe
e tudo está (como o devido)
no seu devido lugar

sábado, 28 de Novembro de 2009

Rés-do-Chão


João Ricardo Lopes, Lisos, Líquidos e Arestas, 2009

Menelau vivia apaixonado pela rapariga do Rés-do-Chão, facto que somente duas pessoas podiam adivinhar e que nem o próprio nem a rapariga pareciam saber. Uma velhota que embarcava todos os dias úteis na mesma paragem de autocarro e atentou uma vez no olhar dele, conhecedora de como o amor tem os seus modos de urtiga quando quer mostrar-se. E a mãe da rapariga do Rés-do-Chão que alimentava as suas esperanças em relação a Menelau, secretamente odiando-o desde que sucumbiu à certeza de que o bom e luxuoso corar daquele homem não se lhe devia, mas à sua filha.

E a rua, agora, sempre encharcada e prenhe de musgo nas esquinas dos rodapés de pedra dos passeios, via menos ainda o amor sacudir-se. As pessoas no Inverno amam solitariamente, interior, envergonhadamente, porque os charcos de água obrigam a desviar a atenção e a pensar nas coisas práticas. Menelau ia para o trabalho sempre com um par de botas e um casaco comprido, onde guardava um cadernito de capa dura e alguns poemas de dimensão lacustre. Era a sua poesia uma dessas palavras ditas ao vento quando sabemos que as pessoas à nossa volta estão a não ouvir-nos. E se as dizemos é porque é muita a precisão. E os poemas são a urgência mais incalculada do mundo. Menelau que o dissesse, ali tão rente ao vidro do autocarro, quase resfriando na pele dura e untada de dedos das janelas, com o caderno estendido e os versos lobrigando. Um tolo.

A rapariga era bonita, sim. Muito jovem também. Quase uma década mais nova do que ele e tão Helena quanto a primeira. Muito bonita, vamos lá. A opinião geral é essa. Mas Menelau não se fica pela beleza. Ama-lhe e absorve-lhe já os pequenos traços do sorriso, as pormenorizadas linhas do carácter, a dor e o tédio, a pressa e os gostos de roupa e de perfumaria. Ela entra sempre primeiro e quase nunca tem lugar sentado. Ela ceder-lhe ia o seu, gostava de o fazer, teria um prazer enorme nisso. Mas fica-se para trás, ela avança, a velhota avança, ele sobe por seu turno, no seu lugar, nervoso e angustiado, como quem tivesse um ácido suplementar no estômago.

Vamos a factos. No dia de ontem, às oito menos cinco, ela atendeu uma chamada e sorriu muito. Não foi longa a conversa, dir-se-ia nela ser tudo breve e fantasioso, mas intensa, intensa até na brevidade das palavras que Menelau não ouviu mas compreendeu, uma por uma, mudas como facadas de um filme, belas e luminosas, mas tão de outro e cruéis como só as de uma mulher que amamos e não sabe e outro leva aos poucos para longe de nós.

Alguém sabe quantas vezes o autocarro parou? As do costume. Quantas? E ela saiu apressada, o casaco apertado com a sua fivela de couro, a pastinha de couro reluzindo à luz tisnada da manhã, as botas de couro reluzindo à dor de Menelau que o autocarro empurrou para o quinto dos Infernos.

Somente a velhota se doeu daquilo. Um autocarro repleto de gente é uma cidade perfeita, férrea e feia, perfeita! E os homens e as mulheres esperam sempre que no dia seguinte tudo seja diferente e melhor e que a chuva, sobretudo ela, não reapareça ao ângulo da janela, quando acordamos do sonho. E Menelau sabe, sabe tudo isso e escreve-o no caderninho, onde a vida pulsa e ninguém espreita ou sequer imagina.

velharias


Henrique Ravasi, Sótão, 2006

subi aos infernos, ao mesmo reino sem fim
dos breves e esquecidos, ao mesmo
silêncio e traves devorando
o mesmo ror de memórias que ninguém
mais pode entender:
a mesma lanterna de pilhas quadradas
as mesmas trevas alumiando teias de aranha
o mesmo velho jogo das damas
a pista de comboio desmantelada.
a luz sobe como álcool e as lágrimas ascendem
às vezes devagar quando as mãos
repossuem um velho coelho de peluche de
novecentas e noventa noites bem dormidas e
enxutas.
é uma arma terrível a lanterna, abre fissuras
como fazem as facas quando abrem fissuras
e os estalidos das traves calam-se
e o silêncio é um poço rodopiando nas veias.
subi aos infernos
e depois vim e a vida regressou
outra vez ao mundo dos vivos: sempre
distante a vida e alheia e às vezes
demente, como acontece e só às sombras
que ninguém mais pode entender

para o Pepe Brix

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

é às vezes


Duane Michals, Certain words must be said, 1987

é às vezes: suculentas luzes atravessam
a catástrofe, põem o seu dedo
enorme na boca em que se abrem as feridas e
vê-se depois tudo
vê-se toda a quinquilharia ardilosa de
coisas julgadas sentidas, toda a
espuma das palavras que escumam como
cães loucos, toda a dor ressumbrando nas
cordas duras das artérias ardidas
vê-se tudo.
é às vezes: é quando a erupção do instante
sobrevoa a flor amornada das pupilas
quando a tristeza que chia nos silêncios
a luz atravessa e justifica
justifica tudo
toda a razão de escrevermos um poema e
endireitarmos as costas.
ninguém sabe porquê
ninguém pode ao certo presumir sabê-lo

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Nós



Nas minhas mãos seguro um preço incalculável de amor. As tuas mãos. O todo o estremecimento de que imaginei muitas vezes em segredo que fosse o amor. O amor para lá da exausta palavra que o abre e o arrosta em pedaços. O amor. Seguro as tuas mãos e beijo-as devagar. Hesito-lhes o sentido (talvez não tenha mesmo sentido para elas). Seguro-as e amo-as e pressinto nelas um preço incalculável de ruas e vozes por dentro e aquecidos perfumes sondando a parte indiscreta dos sonhos. Sim, imaginei-o muitas vezes em silêncio, em segredo, este mesmo amor que levo comigo nas mãos e que me transporta, que me inebria em torrentes e às vezes em êxtase. Um preço incalculado de amor sussurrando na pele, forçando poemas luminosos em cada esquina de cada dia, este amor que é apenas amor e se desfaz, se o seguramos nas mãos, em mais amor igual e ardendo na cauda das palavras. Não o supus tamanho, possível, palpável. E por isso estremeço, seguro-o com força, hesito-lhe o ponto cardeal. Tu. Que deus nos guarde.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

alba


jrl (2009)

- turning from the tremendous lie of sleep
i wathc the roses of the day grow deep.

E. E. Cummings

o teu silêncio, o meu silêncio
andrajos de bruma desabitando
a parte esquecida do olhar.
e o amor poderá assim tanto?
a manhã sacode
traz o corpo atordoado de uma rosa
e aparas de sol, mãos estreitadas
numa carícia só e pura.
pode sim, pode tudo o amor.
e nenhuma palavra é dita
e nenhuma mais enorme
do que nada dizer

domingo, 15 de Novembro de 2009

fábula


Duane Michals, The Annunciation, 1973

no princípio deus disse ao homem:
sê submisso à mulher e
em tudo obedece-lhe até ao
último dos teus dias.
e o homem disse à mulher que
lhe fosse submissa e
em tudo lhe obedecesse até ao
último dos seus dias, pois
assim aprouvera ao senhor.
e a mulher, torção maligna, urdiu
um pacto com o demónio
e por isso tem o homem até ao
último dos seus dias
três inimigos mortais, que são
não o mundo, o demónio e a carne
mas a mulher, o demónio e deus

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

ruído


Bill Brand, Snicket In, 1937

Because I do note hope to turn again

T. S. Eliot

tudo o que disse não disse
luzes negrentas cevando os olhos
como se cedo fora já tão tarde.
se uma janela declina sobre nós
a pálpebra rude e silenciosa
deixemos que tenha valido a pena

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

e de súbito


Kathy T, Rays of Hope, 2008

e de súbito as pálpebras intocáveis da luz
as folhas saracoteando no asfalto
um relâmpago de ternura amorosamente descido
nas costas da mão
e de súbito a fundura dos teus olhos
uma cidade em delírio ao redor, com a sua ciência
de poças de água e terra fumegando e plátanos
e tu esvoaçando nas vidraças claras do pensamento.
obscuro o tamanho deste beijo que nos toma em dois
em quatro, em mil borboletas aéreas e entontecidas
e de súbito a ciência inexacta das palavras
as paredes leves da memória, os breves pássaros
e tu caminhando nas têmporas como fogo
e uma cidade rodopiando depressa, devagar
numa lenta vertigem que deus faça eterna
e de súbito

para ti, Bernarda, com todo o meu amor

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

faz tempo


Foto de Paulo Nozolino

faz tempo que o espelho é vazio.
a fruteira com os dois pêssegos enrugando
a casa e o cotão desenriçado
ao pescoço uma pedra triste
faz tempo.
se lhe pergunto o espelho nada replica
argêntea é a sua página de caderno.
hoje, dia 5, ceguei quando procurava fundo
nos olhos a centelha de uma palavra.
assim, penso que assim é, a indescoberta
munição da nossa morte

para Miguel Monteiro,
que primeiro me fez amar a Língua Portuguesa