
João Ricardo Lopes, Lisos, Líquidos e Arestas, 2009
Menelau vivia apaixonado pela rapariga do Rés-do-Chão, facto que somente duas pessoas podiam adivinhar e que nem o próprio nem a rapariga pareciam saber. Uma velhota que embarcava todos os dias úteis na mesma paragem de autocarro e atentou uma vez no olhar dele, conhecedora de como o amor tem os seus modos de urtiga quando quer mostrar-se. E a mãe da rapariga do Rés-do-Chão que alimentava as suas esperanças em relação a Menelau, secretamente odiando-o desde que sucumbiu à certeza de que o bom e luxuoso corar daquele homem não se lhe devia, mas à sua filha.
E a rua, agora, sempre encharcada e prenhe de musgo nas esquinas dos rodapés de pedra dos passeios, via menos ainda o amor sacudir-se. As pessoas no Inverno amam solitariamente, interior, envergonhadamente, porque os charcos de água obrigam a desviar a atenção e a pensar nas coisas práticas. Menelau ia para o trabalho sempre com um par de botas e um casaco comprido, onde guardava um cadernito de capa dura e alguns poemas de dimensão lacustre. Era a sua poesia uma dessas palavras ditas ao vento quando sabemos que as pessoas à nossa volta estão a não ouvir-nos. E se as dizemos é porque é muita a precisão. E os poemas são a urgência mais incalculada do mundo. Menelau que o dissesse, ali tão rente ao vidro do autocarro, quase resfriando na pele dura e untada de dedos das janelas, com o caderno estendido e os versos lobrigando. Um tolo.
A rapariga era bonita, sim. Muito jovem também. Quase uma década mais nova do que ele e tão Helena quanto a primeira. Muito bonita, vamos lá. A opinião geral é essa. Mas Menelau não se fica pela beleza. Ama-lhe e absorve-lhe já os pequenos traços do sorriso, as pormenorizadas linhas do carácter, a dor e o tédio, a pressa e os gostos de roupa e de perfumaria. Ela entra sempre primeiro e quase nunca tem lugar sentado. Ela ceder-lhe ia o seu, gostava de o fazer, teria um prazer enorme nisso. Mas fica-se para trás, ela avança, a velhota avança, ele sobe por seu turno, no seu lugar, nervoso e angustiado, como quem tivesse um ácido suplementar no estômago.
Vamos a factos. No dia de ontem, às oito menos cinco, ela atendeu uma chamada e sorriu muito. Não foi longa a conversa, dir-se-ia nela ser tudo breve e fantasioso, mas intensa, intensa até na brevidade das palavras que Menelau não ouviu mas compreendeu, uma por uma, mudas como facadas de um filme, belas e luminosas, mas tão de outro e cruéis como só as de uma mulher que amamos e não sabe e outro leva aos poucos para longe de nós.
Alguém sabe quantas vezes o autocarro parou? As do costume. Quantas? E ela saiu apressada, o casaco apertado com a sua fivela de couro, a pastinha de couro reluzindo à luz tisnada da manhã, as botas de couro reluzindo à dor de Menelau que o autocarro empurrou para o quinto dos Infernos.
Somente a velhota se doeu daquilo. Um autocarro repleto de gente é uma cidade perfeita, férrea e feia, perfeita! E os homens e as mulheres esperam sempre que no dia seguinte tudo seja diferente e melhor e que a chuva, sobretudo ela, não reapareça ao ângulo da janela, quando acordamos do sonho. E Menelau sabe, sabe tudo isso e escreve-o no caderninho, onde a vida pulsa e ninguém espreita ou sequer imagina.